Carta para Jung

Essa é a carta de C. G. Jung para uma mulher com depressão, explicando o que ele mesmo faria nessas circunstâncias. Logo abaixo responderei como se eu fosse a destinatária não identificada, especialmente as partes que estão em negrito. Vamos lá!


“Küsnacht-Zurique, 09.03.1959

Prezada N. (destinatária não identificada)

Sinto muito que esteja tão atormentada. “Depressão” significa em geral “pressão ou coação para baixo”. Isto pode acontecer mesmo que não se tenha o sentimento de estar “em cima”. Por isso não gostaria de abandonar esta hipótese sem mais.

Se eu tivesse de viver num país estrangeiro, procuraria alguma ou mais pessoas que me parecessem amáveis, e me tornaria de certa maneira útil a elas para receber libido de fora, ainda que de uma forma algo primitiva como o fez, por exemplo, o cachorro, sacudindo o rabo.

Criaria animais e plantas, que me dessem alegria com o seu desenvolvimento. Eu me cercaria de coisas belas – não importa se primitivas ou simplórias – objetos, cores, sons. Comeria e beberia coisas gostosas.

Quando a escuridão viesse, não descansaria até penetrar em seu cerne e chão e até que aparecesse uma luz no meio do sofrimento, porque a própria natureza se inverte in excessu affectus. Eu me voltaria contra mim mesmo com raiva, para que no calor dela derretesse meu chumbo.

Renunciaria a tudo e me dedicaria à atividade mais humilde, caso minha depressão me forçasse à violência. Lutaria com o Deus sinistro até que me descolasse o quadril, pois ele também é a luz e o céu azul que retém diante de mim.

Seria isto o que eu faria. O que outras pessoas fariam é uma questão que não sei responder. Mas também para a senhora existe um instinto: arrancar-se para fora disso, ou entrar até as profundezas. Mas nada de meias-medidas ou meio entusiasmo. […]

Com votos cordiais, sinceramente seu (C.G.).”

Cartas, C.G. Jung, pg 201, Ed Vozes

Fonte: Como Jung se trataria se tivesse depressão? Site – O feminino e o Sagrado.


Frankfurt, Alemanha, 18.02.2022

Prezado Sr. C. G. Jung,

Quanta gentileza a sua em escrever uma carta há 63 anos atrás que ainda reveste almas!

Faz sentido as suas palavras: o impulso é para fora, para os outros, para interação e integração. Mergulhar no interno só para lutar com nossos demônios e dizer para eles estou viva, tenho luz, pare de me assombrar.

Adquirir essa energia nem sempre é fácil, mas, sem dúvidas plantas, pessoas e as coisas belas que mexem com nossos sentidos nos fortalecem. Hoje, cultivo flores dentro e fora de mim, cuido do meu jardim, caminho no parque, escuto pássaros, abraço árvores. Já o cachorro morreu lá no Brasil anos atrás, onde moro hoje não somos autorizados criar animais, regras contratuais.

Tornar-me útil para as pessoas é o que mais faço, mas, essa libido que recebemos de fora nem sempre condiz com o que necessitamos por dentro. Esses desencontros faz a gente sofrer… Essa tal necessidade de pertencimento, fez-me perder a identidade. Agora voltei as perguntas originais: Quem sou eu? Pra quê e pra quem estou aqui?

Por tempo pensei que não haviam congruências entre o amor incondicional e o amor próprio, agora tenho novas visões com as lições da não dualidade. Espero aprender isso de verdade. Somos um, o que eu faço para mim reflete em todos, em tudo. Simples assim!

Ser estrangeira é um buraco no peito, tão fundo que nem o oceano preenche, é ter que lidar com as contingências entre os continentes. Por isso, seguindo seu exemplo, fui até me especializar nos estudos do comportamento humano para compreender mais de tudo isso aqui. Aliás, as suas teorias são as que mais me aprazem.

Já lutei muito contra a escuridão, tanto bravamente, brava, quanto rendidamente. Entre minha disvirtuada humanidade e meu ser celestial há um corpo que envelhece, uma mente que se cansa, uma vontade de acertar. Bem como, um caráter que se expande a cada novo aprendizado, fica cada vez mais vívido, é o que levamos da vida na Terra para o infinito, nossa essência aprimorada.

Quanto ao quadril, essa pilha de ossos que nos dá o gingado, esse aqui já foi quebrado e consertado algumas vezes… mas nada de meias medidas, ou meio entusiasmo, porque a vida segue com ou sem a nossa aTUAção.

Sr. Jung, eu gostaria de ser mais prática, clara e direta para te responder, porém, meus dias têm sido mais poéticos do que patéticos. Assim estou me curando, acho que o senhor iria gostar de saber disso: eu estou sonhando!

Abraços fraternos,

Cristileine Leão.

9 comentários

  1. Que boa ideia, Cristileine. Gostei muito. Corrija a concordância verbal ” Aliás, as suas teorias são as que mais me apraz.” ( para me aprazem)

    Curtido por 1 pessoa

  2. A partir da Suiça, Carl Gustav Jung andou, ao contrário de Sigmund Freud – de quem se afastou a certa altura de desentendientos na esfera psicanalítica. Jung esteve, inclusive, não como turista, na África, algo que se reflete em seu trabalho, sua visão do mundo, a partir desse tipo de contato, visão do mundo, percepção do mundo – Weltanschauuung. A certa altura do caminho, envolveu-se emocionalmente com uma paciente… mas a partir daqui já não me cabe prosseguir.
    *
    Sua carta ao Jung é uma beleza.
    Um abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Já não me cabe prosseguir foi cômico, rsrs. Interessante essa informação sobre a África, ultimamente tenho pesquisado bastante sobre Berth Hellinger e ele também “estagiou” por lá… Ah! Quando acordarmos que somos todos interligados…
    Bom fim de semana meu querido amigo, fica em paz, sentimento raro🙋🏽‍♀️

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