Vida valsa nua

“São dois para lá e dois para cá”, cantava Elis Regina na valsa da vida…

Tudo é dual, o bem e o mal, o homem e a mulher, a desgraça e a fé.

Como sobreviver? Só ver para crer. Só morrer para nascer.

Zechim é um escritor de Vinhedo, a última cidade que morei no Brasil antes de me mudar para a Alemanha. Domingo li um texto dele que continua ‘valsando’ na minha mente procurando lá suas conexões e identificações. Conta de um rei que tinha tudo, até ficar pelado; e de uma dama que acreditava que não tinha nada, mas deixou sua alma tatuada em bronze. Do mais, leia você mesmo.

A TRÁGICA VIDA HUMANA
José Antonio Zechin

Na vida é assim, uns têm mais sorte; outros, nem tanto. Na caminhada, nem tudo são flores, mas também espinhos. Quando olhamos a distância, parece que todos são felizes, menos a gente. Faz-me lembrar os versos “espuma branca que alveja, mais de longe que de perto”. E Millôr Fernandes que disse: “como são maravilhosas aquelas pessoas que não conhecemos bem”. Costumamos pensar que apenas nós temos problemas na vida. Eu penso que todos, sem exceção, acabam tendo alguma complicação existencial.

Recentemente ficamos sabendo por quanto sofrimento passou Elza Soares, apesar de sua arte e fama. Por estes dias revi dois filmes que permitem este tipo de análise. Na verdade, duas histórias bem diferentes. Uma nem parece tão trágica assim, mas foi também ironicamente triste. Estou me referindo aos filmes “Jorginho Guinle, só se vive uma vez” e “Camille Claudel 1915”. Se tiver interesse, assista.

No início do século 20, a família Guinle foi uma das mais ricas do Brasil. Donos de poderosas indústrias, inclua aí o famoso Copacabana Palace. Jorginho Guinle (1916-2004) foi um dos herdeiros e ficou conhecido por suas extravagantes conquistas amorosas e falência financeira. Consta em sua biografia que, quando jovem, teria dito que não trabalharia um dia sequer na vida. Não trabalhou mesmo, viveu uma vida intensa e sofisticada e morreu pobre, com 88 anos. Dizem que foi um erro de cálculo: ele não imaginou que viveria tanto tempo.

Acredito que a escultura mais conhecida no mundo seja “O Pensador”, de Auguste Rodin. Você deve saber. A jovem Camille Claudel (1864-1943) foi sua assistente e amante. Uma grande artista que não teve em vida o devido reconhecimento por sua extraordinária obra. Após anos de um relacionamento conturbado com Rodin, ela caiu em profunda depressão e foi internada num hospital psiquiátrico com 49 anos, onde ficou isolada do mundo até falecer com 78 anos. Imagina o que foram estes torturantes 29 anos internada e abandonada por todos, com receio de ser envenenada, sendo esporadicamente visitada apenas por seu irmão poeta e diplomata, Paul Claudel.

Pequenas histórias sobre a imperfeição humana e seu inexorável destino. A escultura que ilustra esta crônica é de Camille Claudel e se chama “A valsa”. Talvez a vida seja isso mesmo, um rodopiar incessante e incerto até que chega o inevitável fim. Muitas vezes, um alívio.

2 comentários

  1. Quanto a “dois pra lá, dois pra cá”, letra do médico psiquiatra Aldir Blanc, e música do engenheiro João Bosco, não se necessita de muito esforço, embora algum seja necessário, para se perceber o toque de solidão nos passos do casal dançante (me convidou pra dançar).

    Aldir Blanc, pessoa de uma modéstia cabal, amigo verdadeiro dos amigos, letrista do primeiro time, escreveu vários livros de crônicas, do cotidiano leve, pesado, mudou de feição após um acidente de automóvel, acho que em 1990 ou 91, algo assim, o que marca naturalmente um pessoa. No final, ainda antes de ser vítimado por COVID-19, ficava recluso em sua casa, até ir-se em paz. Muito, muito querido, dentro e fora do meio artístico.

    Quanto ao texto do Sr. José Antonio Zechin, mostra com elegância o bojo da alavra efêmero, o núcleo dos contrastes: dia/noite, ruim/bom, quente/frio, claro/escuro, sempre/nunca.

    Um abraço.
    Darlan

    Curtido por 1 pessoa

  2. Bom, eu não sabia que ele era psquiatra, nem que teve o 19 e nem que tinha partido recentemente… Obrigada por me atualizar. O que seria da gente sem a arte e os artistas? Nem as dualidades poderiam explicar.

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